Cinepipoca: Bicho de Sete Cabeças

Cinepipoca II

CINEPIPOCA – OCUPAÇÃO CULTURAL ERMELINO MATARAZZO

Exibição de 02/06/2016 – Filme: Bicho de Sete Cabeças

 

Provocações estéticas

 

“Não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade profundamente doente”

Com esse pensamento, do filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, damos sequência as reflexões sobre o Cinepipoca do Movimento Cultural Ermelino Matarazzo, ação que venho acompanhando desde o início do ano como parte do processo de pesquisa do Ponto de Cultura Periferia Invisível.

No mês de maio, o eixo temático estabelecido para os filmes foi Saúde Mental, em interface com o mês da luta antimanicomial em todo o país. Como o tema mostrou nuances complexas, aproximou atores diversos das ações do Movimento e mostrou capacidade de dialogar com diversos segmentos da sociedade, decidiu-se pela manutenção do tema pelo menos até o final de junho.

Bicho de Sete Cabeças é um filme nacional que narra a história de um adolescente internado em uma clínica psiquiátrica após seus pais descobrirem que ele estava fumando maconha. A narrativa é impactante, mostra a realidade dos hospitais psiquiátricos do Brasil à época e, em alguns casos, até hoje. Baseado no livro autobiográfico “Canto dos Malditos”, de Austregésilo Carrano Bueno, mais uma vez a sessão calou todos os presentes e um silêncio desconfortável tomou conta da praça assim que os créditos começaram a subir na tela. A cidade parecia responder aos nossos sentimentos e logo a chuva se fez presente. Nos abrigamos na vendinha do outro lado da praça, onde começamos nosso debate.

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Muitas problemáticas são abordadas no filme. A primeira de que se ocuparam os presentes foi a questão das drogas, retratada de maneira sensível e dúbia no filme, tal qual na sociedade. Enquanto a maconha é proibida e o álcool é legalizado, com todas as nuances de interesses econômicos e sociais por trás dessa configuração, a população segue se entorpecendo cada vez mais cedo com drogas legais produzidas pela indústria farmacêutica e os efeitos dessa medicalização extrema são um tanto perigosos.

Em vez de nos perguntarmos o porquê de cada vez mais pessoas, sobretudo jovens, se perceberem em processos de sofrimento mental, de profunda angústia, resultando muitas vezes em condições clínicas mais sérias, como a depressão e a ansiedade clínica, nós preferimos medicalizar essas pessoas para que fiquem artificialmente mais estáveis (e produtivas), ou, quando se tornam um problema e incômodo maior, simplesmente internamos em clínicas de reabilitação.

É como se o problema estivesse no indivíduo, que nossa filosofia ocidental considera o centro do mundo, e não na forma da sociedade como um todo.

É como se disséssemos: “O mundo está bom, funciona em perfeita harmonia, ele é assim mesmo e se você não consegue se encaixar, isso é um problema seu, da sua cabeça. Você está louco”.

Mas se olharmos direito para a sociedade que temos…

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Muitos pensamentos, vivências e experiências foram colocados por diversos participantes. Muitas pessoas acompanharam pela primeira vez a ação do Cinepipoca. Os paralelos do filme com as realidades vividas ali no nosso bairro eram inevitáveis. Alguém começa a dar um depoimento. – Fiquei dois anos sem sair do meu quarto. O espaço torna-se, para além de um momento de reflexão e debates, um ambiente de acolhimento. Falávamos sobre a questão dos remédios e alguns dos presentes contam que tomam ou já tomaram antidepressivos. A discussão continua, e alguém se sente à vontade o suficiente para contar sobre uma internação que viveu há alguns meses, por conta do álcool. O quanto foi difícil, depois de sair da clínica, conviver normalmente em seu círculo social, o quanto foi estigmatizado.

Lá fora a chuva começa a cair com mais força.

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Ampliamos a discussão, sentimos a necessidade. Para falarmos de saúde mental parece ser necessário uma compreensão muito mais ampla de indivíduo, de sujeito, do que aquela que reina no senso comum. Para falarmos de saúde mental, precisamos falar de violência. Precisamos falar de opressão. Precisamos falar de educação. De cultura e das identidades culturais. Do esvaziamento das subjetividades. Da mídia e seu papel padronizador de comportamentos, de desejos e de sonhos. Parece também ser necessária uma visão mais ampla de saúde. Uma visão mais ampla de humanidade, para além da mecanização, da robotização. Enfim. É preciso, sem dúvidas, quebrar pensamentos já enraizados nas profundezas da sociedade e criar uma vivência mais afetiva e mais acolhedora. Romper com estruturas de dominação milenares que só servem a manutenção do poder.

Apreendemos, assimilamos, reproduzimos. Mas também questionamos, criticamos, ressignificamos e transformamos. Somos potência, para o bem e para o mal, não enquanto conceitos opostos, mas sim complementares e indissociáveis. Sofremos e temos o direito de sofrer. Crescemos, compartilhamos. Vivemos a queda do abismo e nos iludimos enquanto caímos, nos convencendo de que “até aqui tudo bem”. Mas também nos encontramos em nossas dores, limitações, fragilidades, pequenezas e grandiosidades. Descobrimos que somos infinitos.

E na evolução de nossos encontros, seguimos (r)existindo, buscando o equilíbrio cortejando a insanidade, para usar as palavras de um poeta brasileiro.

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Ao final do nosso encontro, que aconteceu na vendinha ao lado da praça, descobrimos mais uma história. Enquanto discutíamos todos esses assuntos naquele lugar que tão bem nos acolheu da chuva naquela noite congelante, alguém que não assistiu ao filme nos ouvia conversar. Apenas ouvia. E ao sairmos do espaço, encerrada nossa discussão, ela nos abordou. Contou ter sido internada quatro vezes em clínicas psiquiátricas. Nos mostrou um graffiti ali na praça que foi feito com base em um desenho de uma pessoa que ela conheceu na época em que esteve hospitalizada. O sujeito, amigo, cometeu suicídio e aquela arte era em sua homenagem. Ela disse ter se sentido muito bem com tudo que tinha ouvido aquela noite.

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A chuva parou.

Mas nós fomos embora com a sensação de que caía o mundo em nossas costas.

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