Cinepipoca: O ódio

Foto: O grafiteiro Alan Alvico, do coletivo Muros que Gritam, representou num muro do bairro as suas sensações sobre o filme “O Ódio”.

CINEPIPOCA – OCUPAÇÃO CULTURAL ERMELINO MATARAZZO

Exibição de 18/02/2016 – Filme: O Ódio

 Até aqui, tudo bem,

Até aqui… tudo bem.

Encerrando o eixo temático “Violência do Estado”, a exibição do filme O Ódio, no dia 18 de fevereiro, que ocorreu na Praça Benedicto Ramos Rodrigues, em Ermelino Matarazzo, trouxe reflexões importante para todos os presentes. Ambientado na periferia de Paris em meio a revoltas populares, o filme dá conta de questões complexas, como a violência policial e social, o racismo e a xenofobia, as identidades sociais periféricas, entre muitas outras, trazendo o ódio como o elemento que media essas interações e toma lugar central na sociedade. Mais do que isso, o filme consegue fazer tudo isso sem cair no maniqueísmo típico que geralmente toma conta de debates desse tipo.

Após o encerramento do filme, o silêncio reinou por alguns instantes, com os presentes bastante impactados pelo filme, imersos em reflexões, angústias, sensações. Quando finalmente foi rompido, a primeira fala veio em tom de crítica: Apesar do filme retratar uma realidade que conhecemos, ele é pouco propositivo, e deixa de lado a resistência que também acontece nas quebradas contra o sistema de violência e ódio – como por exemplo os eventos culturais periféricos, as rodas de conversas, debates, e muitas outras formas de organização popular. Como contraponto, alguns compreenderam essa ausência como proposital, considerando que o propósito do filme não é de ser propositivo, mas explicativo, quase didático. É mostrar a face dos problemas como eles são, em sua complexidade, com as suas questões materiais, mas também subjetivas. E que nesse propósito, o filme é excelente e cumpre a sua função. Em seguida, muitos apontamentos foram realizados, no sentido de compreender a realidade retratada por um filme francês de 1995 como estando tão próxima com a das periferias brasileiras de 2016 e com questões mais atuais. Os personagens retratados pelo filme, de etnias diversas, um judeu, um negro e um árabe, trouxeram reflexões sobre os refugiados na Europa e paralelos impressionantes para com a realidade brasileira atual. O narrador do filme nos diz que a história é sobre um homem que cai de um prédio de cinquenta andares. Durante a queda, ele repete sem parar: “Até aqui tudo bem, até aqui tudo bem, até aqui… tudo bem. O importante não é a queda, é a aterrisagem. ”

Não vivemos assim, nós, periféricos, um dia por vez, repetindo esse pensamento em nossas cabeças como um mantra? Não estamos todos caindo desse prédio enorme, nos enganando com a falsa segurança proporcionada pela queda, enquanto aguardamos a aterrisagem inevitável? Não somos nós, como na história do senhor da cena do banheiro, um rapaz tímido correndo atrás do carro de bois enquanto tenta segurar as próprias calças e esticar a mão ao seu amigo?

Como dito, o filme não oferece soluções, pelo contrário, embrulha o estômago ao ilustrar de forma brutal a violência da realidade. E nós, o que pensamos? Qual é a saída para uma sociedade que já pulou do abismo e está agora em queda livre? Há revolução possível? Qual?

As opiniões se dividem, talvez não no objetivo, mas sem dúvida nas estratégias e nos métodos. Enquanto o Estado detém o monopólio da violência, o povo é refém em seu próprio território e a solução, seria então, estarmos todos armados. A violência contra a violência. A guerra ao invés desse massacre, onde só morre gente de um lado. Mas a mentalidade é sequestrada cedo e é difícil diferenciar amigo e inimigo, mesmo nas periferias as pessoas parecem cada vez mais indiferentes, apáticas, individualistas e distantes. Não é possível combater a violência do estado com mais violência e nossa principal batalha, guerra, reside no campo das ideias. Vamos disputar a mente das pessoas – não é isso, afinal, que estamos fazendo agora, aqui, na ocupação dessa praça? Sem dúvidas, sim. Mas será possível combater fogo e violência somente com palavras bonitas, arte e conhecimento? Enquanto alguns seguem acreditando que sim, outros preferem se preparar pro arrebento, ou melhor, pra aterrisagem. De todo jeito, seguimos juntos, pois assim como o protagonista do filme, sabemos de onde viemos.

O ódio, cultivado em nossos corações desde cedo, pelas ausências, pelo capital, pela escola, pelo estado; se materializa e jorra para todos os lados que a visão é capaz de alcançar. O ódio existe e se torna mais forte quanto mais compreendemos as estruturas da sociedade em que vivemos. O ódio nos move, nos motiva, nos faz lutar com todas as forças contra tudo aquilo que nos oprime, que nos violenta diariamente. Ele não é apenas inevitável ao longo da vida, mas é também e principalmente necessário. Mas isso não é tudo.

De volta a questão material sobre as nossas armas – o conhecimento, a arte, ou as armas de fogo – nenhuma delas parece ser mais poderosa no combate ao ódio do que uma outra que carregamos dentro de nós, seja em realidade ou em potencialidade. Foi assim que encerramos, já beirando as onze horas da noite, o nosso debate de quinta-feira: munidos e armados até os dentes de muito amor. Amor para aceitar a si mesmo, e, com isso, o próximo; amor para transformar ausências em presença, para ressignificar lugares físicos e mentais e para poder, inclusive, agir. Saímos com uma certeza e uma pergunta: Até aqui, nada vai bem. Ainda há tempo?

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