POR QUE QUEREM FECHAR A OCUPAÇÃO CULTURAL DE ERMELINO MATARAZZO?

LUTA, RESISTÊNCIA E AUTONOMIA

Em novembro de 1981, o artista plástico e professor Mateus Santos escrevia, satisfeito, no rodapé da lista de presença do seu curso de Desenho Artístico, ministrado em Ermelino Matarazzo:

“Acertei quando entrevistado por esta equipe, falei: – Só nos falta um salão, alunos nós teremos. Como se vê, começamos o mês com 19 e proporcionalmente terminamos com 62.”

Santos já entendia, naquela época, a importância e a necessidade de se haver espaços dedicados a produção artística e a formação cultural no bairro. Foi um dos grandes potencializadores da cultura em Ermelino, tendo formado diversos artistas bem como retratado o cotidiano do bairro ao longo de toda sua obra.

Mas a jornada para garantir a existência desse espaço junto ao poder público estava apenas começando. Perpassou pelas lutas do grupo de jovens da Paróquia São Francisco de Assis durante a gestão da prefeita Luiza Erundina. Percorreu caminhos mais duros nas tentativas de diálogo com as gestões de Paulo Maluf e Celso Pitta nos anos 1990. E também foi sofrida quando não conseguiu garantir nem mesmo um CEU para o bairro durante a gestão Marta. Por alguma razão, Ermelino permanecia sem um equipamento público de cultura que pudesse garantir ao nosso povo a possibilidade de registrar suas próprias histórias e de significar suas próprias vivências. Mais uma tentativa do estado de sabotar a população.

Mas a SeViraLogia, a ciência da quebrada, nunca falha. E, é claro, nossas histórias foram registradas e transmitidas, se não nos livros, na oralidade presente em cada encontro, em cada esquina, em cada boteco. Nossos símbolos comuns foram forjados no cotidiano compartilhado, nos trens, nos ônibus e nos olhares. E nossa cultura transbordou, tomou as ruas e avenidas, tomou os muros, as praças, tomou as ondas do ar, tomou os palcos, picadeiros e por fim tomou até mesmo a internet.

Foram diversos grupos culturais e artísticos que se formaram em Ermelino Matarazzo, apesar da omissão do estado. Uma produção cultural pulsante e diversa que começa a se conectar e se reconhecer enquanto movimento que flui na mesma direção e que se percebem nas mesmas dores, nas mesmas dificuldades. Afinal, fazer cultura na periferia é sempre um ato político.

A partir do ano de 2009, compreendendo-se então como sujeitos políticos, os coletivos culturais do bairro passam a se organizar em rede para cobrar do poder público, de maneira mais incisiva e potente, a concretização de um espaço no bairro que possa abrigar e fortalecer toda essa diversidade de manifestações artísticas existentes. Atos, manifestações, intervenções artísticas, ação direta, constrangimentos públicos do prefeito, campanhas nas redes sociais, mostras, reuniões, mapas, seminários, ocupações… Muitas foram as estratégias utilizadas pelos coletivos para cobrar o que é de direito. Chegaram ao ponto de utilizar um banner em uma fala pública do prefeito: “Menos Diálogo, Mais Ação. Arte e Cultura Pra População.” Por essas e outras o movimento cultural do bairro foi taxado de radical, de extremista. Mas pra quem vinha dialogando por anos sem nunca ter visto nenhum resultado concreto, pode acreditar que um banner foi uma atitude bastante branda.

Por fim, em setembro de 2016, nasceu a Ocupação Cultural Mateus Santos, homenagem ao artista e professor que deixou um legado de aprendizados valiosos para a comunidade. Ao identificar no centro do bairro um prédio público, ocioso há mais de 10 anos, sem nenhum uso social, sem nenhum plano de uso por parte da prefeitura, os produtores culturais locais decidem utilizar esse espaço como sede e polo irradiador de arte e cultura na região. A Ocupação foi resultado do acúmulo de lutas do bairro frente à inação da prefeitura. Cansamos de esperar respostas e construímos a nossa própria. Assim como fizemos com a nossa história, que só foi contada por nós mesmos, com a nossa cultura, produzida por nós mesmos, também nosso espaço, nosso equipamento cultural é produto de nossas próprias mãos. À prefeitura restou a opção de apoiar, de fortalecer, entendendo a legitimidade da luta. Ou, no mínimo, sair da frente, não ser barreira, pois que a história atropela aqueles que ousam ficar em seu caminho. Ficaram com a primeira opção, entenderam o peso da história.

Durante 8 meses, a Ocupação contou com reconhecimento oficial da prefeitura e o prédio ocupado foi  decretado, em dezembro de 2016, como Casa de Cultura Municipal, sendo a sua gestão realizada pelos coletivos culturais locais. Enfim, uma vitória: um espaço consolidado, gestão horizontal, uma autorização de uso e uma pequena injeção de recursos. Ainda muito abaixo do que seria necessário, bem abaixo do que recebem as outras Casas de Cultura na cidade, é verdade. Mas a vontade foi tão forte, a demanda era tão intensa que transformamos essas pequenas coisas em uma experiência potente e histórica para o bairro de Ermelino Matarazzo.

Neste mais de 1 ano de Ocupação, diversas parcerias importantes com entidades públicas e privadas, atuantes no território, foram estabelecidas. Equipamentos públicos do bairro como CAPS, Centros de Acolhida, Medida Socio-Educativa, Escolas, ETEC, USP Leste, Instituto Federal entre outros, estabeleceram vínculos com o espaço, reconhecendo a necessidade de um equipamento cultural no bairro e as possibilidades de transformação embutidas ali. Entidades privadas, como ArcelorMittal, Amaphiko, Cingulado, entre outras, também desenvolveram ações na Ocupação. Isso para citar entidades que não estão diretamente relacionadas à área da cultura, pois nesse campo seria impossível contabilizar os impactos do espaço e todos os coletivos, grupos e artistas que por ele já passaram.

Enfim, a Ocupação Cultural de Ermelino Matarazzo se mostra mais um exemplo da potência da cultura periférica, dos impactos e transformações que a cultura pode gerar nos territórios periféricos. É um equipamento de extremo sucesso.

Mas apesar de nós, ermelinenses, periféricos, termos criado, contra todas as chances, formas de registrar e aprender com a nossa história, a prefeitura parece sofrer de amnésia institucional. Trocam-se as pessoas que ocupam as cadeiras e o passado se apaga.

A prefeitura, agora, além de não mais reconhecer o espaço, quer também fechá-lo. Fechar o único espaço cultural do bairro. A conquista mais concreta de uma jornada de luta que se arrasta por três décadas. Fechar, demolir. Por quê?

Por que querem tanto fechar a Ocupação Cultural de Ermelino Matarazzo?

A prefeitura não assume que quer fechar o espaço. Ela se esconde atrás de argumentos técnicos, de laudos, de riscos. Diz que o prédio pode cair. Mas não tem certeza. Pode ser que caia, pode ser que não. Melhor fechar e demolir. Mas a gente pode – talvez – transferir as nossas atividades para a biblioteca. Ou para um lugar alugado – mas ninguém sabe dizer que lugar é esse, se é que ele vai existir. É isso que diz no documento que a prefeitura entregou na sexta-feira, 08 de dezembro de 2017. E que temos até quarta-feira, 13, pra desocupar o prédio. Desocupar.

Hoje, a Ocupação Cultural Mateus Santos não recebe nenhum apoio institucional da prefeitura, ainda que seja oficialmente uma Casa de Cultura Municipal. Desde que fomos coagidos a trabalhar de graça pra prefeitura em maio deste ano e dissemos “Não!” estão querendo quebrar a nossa cara. Mas nós não parámos. A SeViraLogia tem sido a regra que nos guia, e hoje mantemos o espaço através de uma campanha de financiamento coletivo, doações voluntárias da comunidade e venda de camisetas e materiais promocionais. A programação é extensa e diversa e tudo isso pode ser facilmente verificado através das páginas do Movimento Cultural Ermelino Matarazzo e da Ocupação Cultural Mateus Santos.

Na situação atual, a prefeitura já faria muito se não atrapalhasse. Mas um espaço construído de maneira autônoma, que não se dobra aos caprichos de gestões autoritárias, de meninos mimados e de coronéis locais incomoda demais o poder estabelecido. Mais uma vez a cultura periférica de Ermelino Matarazzo vai resistir. Enquanto estivermos vivos, estaremos lutando, seja na Ocupação, seja nas ruas, nas praças ou nos espaços institucionais. Nós, como sempre, ficamos. Gestões e prefeituras passam.

Comentários

  1. Vander xCHEx

    E digo mais: Tamo Junto e Misturado nessa luta.

    E que o relato seja lido e compartilhado, afinal de contas essa é uma história contada por quem não domina e que também não aceita ser dominado por ninguém.

    #OcupaErmelinoResiste

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